terça-feira, 28 de abril de 2009

Linguagem Exterior

Aqui vai um excerto do livro "Cartas para Cláudia", emprestado pela minha querida afilhada Cláudia (obrigadaa),do qual eu gostei particularmente:

“Tudo se passa como se a linguagem exterior, a que costumamos usar para comunicar-mos com os outros, nem sempre fosse o reflexo fiel do que aparentemente quero dizer.

Às vezes, eu sou eu

E a minha linguagem é o meu disfarce.

Por exemplo, imaginemos que quero dizer-te o seguinte:

«Ontem, quando me insultaste, zanguei-me muito e senti vontade de te partir uma cadeira na tua cabeça.»

Se me disfarçar dir-te-ei: «Às vezes, a agressividade perturba qualquer um. »(???)

Repara na indefinição, na ambiguidade e na falta de compromisso da segunda frase: «Às vezes (quando?)m a agressividade (qual? De quem? Contra quem?) perturba (o que faz?) qualquer um (quem?).

Outro exemplo. Digo-te: «Queres tomar um café?», em vez de: «Quero tomar um café contigo. Peço-te que me acompanhes.»

Muitas vezes, fazemos perguntas em vez de afirmar um pensamento que nos pertence.

Essas são as nossas «frases encobridoras».

Se cada vez que fizer uma pergunta encontrar a afirmação escondida, dar-me-ei conta de muitas afirmações que omito.

Perguntar é uma eliminação, um roubo que faço de uma parte do que digo ou de toda a minha expressão.

Na pergunta não há compromisso, falo sem dizer, disfarço-me.

Para que faço estas coisas? Quero que os outros gostem de mim (?), me aprovem, me aceitem, estejam contentes de conhecer uma pessoa tão agradável e simpática como eu. Tenho medo de ser repelido, de ser abandonado, de ser criticado, de que não gostem de mim.

E, então, abro o baú dos recursos e disfarço-me: um nariz redondo, um pouco de carmim, um chapéu atraente, uns sapatos engraçados e, sobretudo, fato e gravata (porque não se deve perder a formalidade…). Então engano-te, vigarizo-te, minto-te…

Tu aceitas o meu disfarce, queres o meu disfarce, admiras o meu disfarce… E, se eu o fizer bem, talvez nem sequer te dês conta e julgues que te estas a relacionar comigo. “

Bucay, J (2005). Cartas para Cláudia: Ensinamentos de um psicólogo a uma velha amiga. Cascais: Pergaminho. PP. 49 – 50.

1 comentário:

Hera disse...

Esse livro é como um tesouro para nós, consegue fazer-nos crescer e pensar num instante... tem partes bastante interessantes e que revelam alguma sabedoria :)