
REGRESSO ÀS AULAS
Vamos denunciar os recreios fora-da-lei
08 | 09 | 2008 10.23H
Uma crónica muito boa escrita por um psicólogo de quem gosto muito.
«Logo no primeiro dia de aulas, o psicólogo e professor Eduardo Sá pede aos pais para agirem: «Gostava de desafiar os pais a reclamarem na ASAE».
Hoje é o regresso à escola. As crianças acordam a horas e bem-dispostas. Os livros cheiram bem e apetece fo-lheá-los. Os amigos de há dois meses são um pouco mais estranhos do que eram, e os professores parecem, quase todos, mais simpáticos. Se todos os dias de escola fossem como o primeiro, o insucesso escolar ia de férias para sempre.
A escola é a invenção mais bonita da humanidade e torna a educação, cada vez mais, um exercício recíproco e plural. Mas se há novos programas, novas regras e outros manuais, a maioria das escolas continua a não ser grande amiga do recreio. As crianças têm, cada vez mais, aulas mais longas e mais tempo de trabalho e, se os pais fizerem uso de todas as alternativas que ela lhes oferece, passam demasiado tempo na escola. Por mais que os educadores não o reconheçam, nem sempre mais escola é melhor escola. O que espanta é que - com dias que ultrapassam, invariavelmente, as 8 horas de trabalho - ainda haja quem não os relacione com os défices de atenção, com a desmotivação ou com as perturbações de comportamento de muitos alunos.
Mais tempo de recreio e melhores recreios transformam a escola numa sala de estar e promovem o sucesso educativo. Ora, é aqui que não se compreende que - muitas vezes, por falta de pessoal auxiliar - os recreios tenham 10 minutos entre aulas de 90 (o que obriga as crianças a irem à casa de banho, ao bar e a brincar em suaves prestações de 3 minutos e alguns segundos). Não se compreende que os recreios sejam entregues à videovigilância e não haja professores ou animadores que os aproveitam como momentos lúdicos e educativos. E não se compreende que os rankings de escolas nunca contemplem um ranking de recreios.
Não falando dos recreios cobertos, que não existem (e que nos leva a presumir que, para os ministérios da Educação, o recreio tenha sido considerado, desde sempre, uma actividade sazonal, do género Primavera/Verão) muitas escolas não cumprem, em relação aos recreios, as regras de segurança definidas na Lei. São, vezes de mais, de alcatrão esburacado, e convivem neles balizas ferrugentas e tabelas de basquetebol mais ou menos podres.
É por isso que, considerando que a escola se deve transformar do recreio para a sala de aula, eu gostava de desafiar os pais a reclamarem, junto de ASAE, sempre que os recreios das escolas dos seus filhos não estejam em condições ou não reúnam as regras de segurança que as autarquias, desde há muito, já cumprem em relação aos espaços lúdicos para crianças. Quando algumas escolas forem encerradas, por falta de condições dos recreios, outras se seguirão. E, no dia em que se fechem várias escolas por causa de recreios fora-de-lei, a comunidade educativa terá percebido o brincar como a grande necessidade educativa (especial!) do aprender».
Eduardo Sá






